Chicago - Brazil Tutor/Mentor Connection

An exchange experience for empowering youth in Brazil and Latin America.

Meu universo nesta empreitada é a Cidade de Chicago. Estou aqui há algumas semanas, de férias, mas tentando fazer deste tempo de ócio algo mais que um momento de prazeres de facil digestão. Eu me conheço e sei que se não tivesse um objetivo externo à minha natureza hedonista, passaria todo este tempo apenas em busca de resturantes, espaços expositivos e brechós, circulando pela parte ensolarada da cidade. Então, antes de vir, me ofereci como voluntária para algumas organizaçoes de interesse público. E fui muito bem recebida por Daniel Bassill, presidente da Cabrini Connections, uma organização que atende crianças e jovens de Cabrini Green, um “project” bastante conhecido em Chicago por sua violência e visibilidade, por estar incrustado nas imediações do centro da cidade numa região em crescente valorização imobiliária e algumas boas opções noturnas e gastronômicas devido a presença da abastada juventude universitária local. Ao me receber e conversarmos sobre meus interesses pessoais, Daniel ao invés de me ocupar com as atividades de seus programas, me deu uma missão, de conhecer e relatar sobre os projetos que atendem ao grupo étnico ao qual pertenço: o latino-americano. As crianças dele também são descendentes de imigrantes, mas de uma outra época, seus ascendentes chegaram aqui há mais tempo, elas são afro-americanas.
Na primeira visita realizada, fui de táxi, atrasada, depois de um longo almoço até a vizinhança de Pilsen, anteriormente povoada por checos, croatas, autríacos e hoje tomada pelas cores da bandeira mexicana. Ali conheceria Nestor Batres, diretor do After School Program “depois da escola” da Casa Aztlan. O prédio chama atenção, de arquitetura boêmia, do final do século 19, totalmente coberto por um colorido mural com personagens centrais ca cultura latino-americana. Curiosa a imagem de Frida Kahlo, bem mais bela que a original, e mais bela ainda que Salma Hayek, que a interpretou no cinema.
Uma turminha batia bola, esperando o horário de treinar com o técnico do programa de futebol. Crianças lindas, com a beleza que têm os que não sabem que são pobres, ou que não carregam a pobreza como condição principal de sua existência.
Segundo Nestor e o consenso geral, os jovens latinos em idade escolar que vivem na cidade de Chicago dificilmente continuam no sistema educacional após o “high school”, equivalente ao nosso ensino médio. E dificilmente entram na universidade, sem nunca atingir os níveis mais avançados de capacitação profissional. Aos ilegais não é permitido o acesso à Universidade. A oferta de cursos superiores nas poucas universidades que oferecem oportunidades para os jovens latinos está concentrada em profissões consideradas de segundo escalão, na área de serviços e saúde, lhes sendo recusadas vagas em ciências exatas e biológicas, pesquisa, medicina ou direito. O trabalho da Casa Aztlan então consiste em treinar as habilidades naturais dos jovens atendidos, incentivá-los em busca de bons resultados na escola e encorajar sua curiosidade para as áreas de estudo em que os “outros” os acham incapazes. Sua auto-estima, sua percepção como estrangeiros, suas diferenças culturais, sua feição latina, contribuem para que essas crianças se vejam como naturalmente inadeqüadas para a ocupação de altas posições, lhes sendo mais familiar a imagem de ganhar a vida atrás de um balcão, servindo refeições, muitas vezes nem mesmo recebendo as gordas gorjetas que normalmente se pagam pelo serviço por aqui. É visível a segregação nos restaurantes: uma jovem americana branca apresenta o menu, fala sobre a carta de vinhos e os especiais do dia e a partir daí alguém de pele morena e feições ameríndias lhe serve, limpa a mesa e recolhe os pratos, de cabeça baixa e praticamente mudo.
É regra geral, que crianças que vivem em ambientes familiares em que a prioridade é a obtenção da sobrevivência, por estarem muitas vezes em situação ilegal que limita a atuação profissional dos pais, se vêem obrigadas a colocar o estudo em segundo plano, ou no plano das coisas inatingíveis.
A Casa Aztlan é um ambiente de resistência dos valores mexicanos, mas também um ponto de fricção e contato dos recém-chegados imigrantes ilegais com a cultura americana. Ali os adultos têm aulas de inglês e cidadania. E também recebemassistência jurídica para a obtenção da legalização de seus vistos e para a manutenção das garantias dos direitos como refugiados. Entre as crianças, a Casa Aztlan promove a afirmação dos valores de sua cultura de origem, equilibrando sua formação como cidadãos com os valores americanos que lhes são ensinados na escola oficial. A ajuda nas tarefas de escola é bilingüe. Aqui as criançãs também são familiarizadas com o pensamento crítico, o protagonismo. Eles aprendem a questionar os mecanismos que os colocam a margem do sonho americano, e não se vêem como vítimas deste sistema, ainda que muitos dos jovens de origem hispânica abandonem a educação formal, que ainda é o mais eficiente processo de integração social e formação da cidadania que conhecemos, e sejam facilmente recrutados pelas gangues, atraídos pelo poderio e a possibilidade de ascenção social e acabam enfileirados nas estatísticas da violência, como recentemente mostrou o um alarmante artigo na NY Times Magazine.
Nesta bela e ao mesmo tempo caótica casa, as crianças também têm aulas de robótica com graduandos da Harold Washington University. Os robôs são feitos a partir da doação de aparelhos eletrodomésticos. E funcionam.
Eles aprendem a fazer brinquedos com o material que lhes é oferecido, com o que eles encontram nas ruas. São geringonças divertidas e estilosas, não tão coloridas e falantes como as parafernálias movidas a pilha, que se empilham nas megastores de brinquedos daqui, estas são movidas a gente. Um outro artista conduz um programa de artes plásticas muito bem sucedido na Calmecac Art Gallery, que fica no terceiro andar do prédio. Os jovens são responsáveis por todo o processo de produção, da concepção e execução das obras à confecção dos convites para a abertura e divulgação da mostra. Nunca gosto de dizer se isto ou aquilo é artisticamente bem sucedido, mas é preciso ver de perto, vivenciar o prazer estético ou conceitual que a obra proporciona. E eu vi. Digo que aquelas pinturas não são traços de crianças coitadinhas que se sentem inferiores. É um conjunto de peças de teor artístico consistente, que poderia ser apresentando em uma mostra de jovem artistas de qualquer lugar do mundo. Essas crianças sabem quem são e felizmente parecem saber também para onde vão.
Como é de costume, quem vem para ensinar, muito aprende, Nestor me disse que sempre se sentiu apenas mexicano até vir morar nos Estados Unidos e lecionar escultura no Art Institute of Chicago. Vivendo aqui há dois anos, ele finalmente se vê como latino, por estar submerso a tantas outras maneiras de ser latino. Pois Chicago, como todas as grandes cidades americanas, é tomada também por porto-riquenhos, cubanos, salvadorenhos, guatemaltecos e brasileiros. Cada povo, com seu jeito de ser latino-americano, com suas idiossincrasias, mas tendo em comum a mesma fé cristã aparelhada por orixás e pajés, a saudade da terra natal e injusta, de sistemas ditatoriais e governantes corruptos.
A Casa Aztlan no que diz respeito à administração programa, não é organizada no sentido de contabilizar os atendimentos ou levantar dados quanto ao impacto de seus projetos. A Casa Aztlan é como uma matriarca latina, que se predispõe a criar seus filhos, ajudando-os na melhor maneira possível, com os recursos que tem ao seu alcance. Alguns desses filhos conseguem se estabelecer e retornam como voluntários, dando continuidade a este projeto que atua na região desde a década de 70.

Clique aqui e veja o álbum da visita.

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Daniel Bassill Comment by Daniel Bassill on May 10, 2008 at 9:31am
Hi Janaina,

The photos look great. Can you post this article in English also?

Dan

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